O que é
Profilaxia pós-exposição com um antibiótico: uma dose tomada depois do risco, antes que uma infecção tenha tempo de se estabelecer.
Uma dose, depois do fato
A DoxiPEP — profilaxia pós-exposição com doxiciclina — é uma dose única de 200 mg de doxiciclina tomada depois de uma relação sem camisinha. A doxiciclina é um antibiótico da classe das tetraciclinas, prescrito há décadas e barato, para acne, infecções respiratórias, prevenção da malária e tratamento de ISTs; aqui, é usada no momento em que as bactérias tentam se instalar.
O que ela faz
Age contra as três ISTs bacterianas — sífilis, clamídia e gonorreia — com sucesso muito desigual. Sífilis e clamídia são altamente sensíveis. A gonorreia muitas vezes não é: cepas resistentes às tetraciclinas são comuns em muitos lugares, então ali a proteção é, na melhor das hipóteses, parcial.
O que ela não faz
Nada contra HIV, herpes, HPV, hepatites B ou C, nem mpox — são vírus, e a doxiciclina é um antibiótico. Não é contraceptivo. Não substitui a PrEP, a camisinha, a vacinação nem a testagem regular; todas as diretrizes a apresentam como mais uma ferramenta ao lado das outras.
Para quem é
Um grupo deliberadamente restrito: pessoas com alta frequência de ISTs bacterianas, para quem o benefício supera claramente o custo em resistência.
Os estudos que provaram que a DoxiPEP funciona foram feitos com homens que fazem sexo com homens e mulheres transgênero que já tinham alta frequência de ISTs bacterianas — e todas as diretrizes nacionais se mantiveram nessa população. O limiar exato varia por país (veja a seção sobre onde você vive), mas o perfil é o mesmo:
As diretrizes não recomendam a DoxiPEP para mulheres cisgênero, e a maioria estende essa reserva a homens trans e a homens que só fazem sexo com mulheres. O motivo é a evidência, não um julgamento: o único grande estudo com mulheres cis (Quênia, 2023) não encontrou redução das ISTs — muito provavelmente porque poucas participantes tomaram de fato os comprimidos — e não há dado algum nos outros grupos. O Reino Unido deixa a porta aberta caso a caso para pessoas designadas mulheres ao nascer; a França a fecha explicitamente.
Como tomar
200 mg, o mais cedo possível depois da relação, no máximo 72 horas depois — e nunca mais de uma dose a cada 24 horas.
- O mais cedo possívelTome 200 mg (2 × 100 mg) com um copo grande de água, de preferência com comida.
- Em até 24 horasA janela que todas as diretrizes têm como alvo.
- Até 72 horasAinda vale a pena. Depois disso, sem benefício — espere a próxima exposição.
A doxiciclina age enquanto as bactérias ainda estão se multiplicando no ponto de entrada. Quanto mais cedo a dose, melhor; 72 horas é um máximo, não uma meta.
As regras que acompanham a dose:
O que se sabe sobre a eficácia
Excelente contra sífilis e clamídia, incerta contra gonorreia, não comprovada em mulheres.
Nos dois estudos positivos, quem usou DoxiPEP teve cerca de dois terços menos ISTs bacterianas no total, com efeito notavelmente constante para sífilis e clamídia. A gonorreia é a exceção, e não é o comprimido que falha: em muitas cidades os gonococos já carregam resistência às tetraciclinas, então sobra menos para o medicamento agir. O estudo queniano com mulheres se lê sobretudo como um resultado de adesão — a maioria das participantes não tinha medicamento detectável —, mas significa que o benefício em mulheres simplesmente não está demonstrado, e por isso as diretrizes não o recomendam nesse grupo.
A questão da resistência
É o que diferencia a DoxiPEP da PrEP: o custo é coletivo. Cada dose seleciona bactérias resistentes — nas ISTs que ela combate e nas que você carrega todo dia.
A gonorreia já está escapando
Onde a DoxiPEP foi usada em larga escala, a gonorreia se adaptou rápido: em Seattle, a proporção de cepas com alto nível de resistência às tetraciclinas passou de alguns por cento para cerca de dois terços entre 2021 e 2024, e um estudo de 2026 no sul da Califórnia mediu uma perda rápida de proteção contra gonorreia depois da implantação. Sífilis e clamídia não mostraram resistência até agora — mas uma pressão prolongada pode mudar isso.
As bactérias “espectadoras”
A doxiciclina não sabe para quais bactérias foi destinada. Nos estudos, os usuários carregavam mais Staphylococcus aureus resistente às tetraciclinas no nariz e mais genes de resistência no intestino. Ninguém sabe ainda o que isso significa para o tratamento de uma futura infecção de pele, respiratória ou urinária — exatamente por isso as diretrizes são cautelosas.
Por que o alvo é restrito
Para quem contrai várias ISTs bacterianas por ano, o benefício pessoal é grande e a exposição extra a antibiótico é modesta perto dos tratamentos evitados. Para quem raramente se expõe, a conta se inverte. Cada diretriz traça sua linha nesse equilíbrio, e pede que ele seja revisto regularmente.
Efeitos colaterais e precauções
Principalmente desconforto no estômago e sensibilidade ao sol, ambos fáceis de limitar; uma lista curta de pessoas que não devem tomar.
O acompanhamento que vem junto
A testagem regular de ISTs não é opcional aqui: é o que mantém honesta uma proteção parcial.
Como a DoxiPEP é incerta contra a gonorreia, uma infecção não testada é uma infecção que continua sendo transmitida. A testagem trimestral segue o mesmo ritmo do acompanhamento da PrEP para HIV, e a maioria das pessoas que usam as duas faz tudo em uma única consulta. No Brasil, a testagem é gratuita nos serviços do SUS e nos centros de testagem.
O que o seu país recomenda
A DoxiPEP é off-label em todo lugar. O que muda é a posição da autoridade nacional, o grupo que ela nomeia e onde de fato dá para conseguir — esse é o ponto a verificar onde você vive.
No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda formalmente a DoxiPEP para um grupo definido (10 de março de 2026), como um dos componentes da prevenção de ISTs, ao lado da testagem, da vacinação e da camisinha.
O grupo nomeado: homens que fazem sexo com homens e mulheres transgênero que tiveram pelo menos uma IST bacteriana — sífilis, clamídia ou gonorreia — nos últimos 12 meses.
A diretriz cobre as três ISTs bacterianas, com a ressalva habitual: a proteção contra a gonorreia é parcial.
É dispensada gratuitamente pelo sistema público de saúde.
A portaria dá ao sistema de saúde 180 dias para implantar a estratégia, o que aponta para disponibilidade na rede do SUS por volta de setembro de 2026.
Em Portugal, não encontramos uma posição nacional sobre a DoxiPEP. Na Europa, a maioria dos países ainda não a definiu e aguarda a OMS e o ECDC; um serviço de saúde sexual pode, mesmo assim, conversar sobre isso com você.
Onde você vive, não encontramos uma posição nacional sobre a DoxiPEP. Na Europa, a maioria dos países ainda não a definiu e aguarda a OMS e o ECDC; um serviço de saúde sexual pode, mesmo assim, conversar sobre isso com você.
Onde ir e com quem falar
Recursos locais para se testar, começar a PrEP ou tirar dúvidas — confidenciais.
- Onde encontrar a PrEP — Ministério da SaúdeEncontre onde fazer um teste ou obter a PrEP perto de você.
- Disque Saúde 136 — Ministério da Saúde136 · Seg–Sex 8h–20h, Sáb 8h–18hLinha de informação e apoio, confidencial.
- PrEP — Ministério da Saúde (gov.br/aids)Informação de referência e organizações.
- Rede de Rastreio — Diretório de locais de rastreioEncontre onde fazer um teste ou obter a PrEP perto de você.
- SNS 24 (Linha Saúde 24)808 24 24 24 · 24h/dia, todos os diasLinha de informação e apoio, confidencial.
- SNS 24 — Prevenção da infeção por VIH (PrEP)Informação de referência e organizações.
- PrEPWatch — global PrEP availability (AVAC)Encontre onde fazer um teste ou obter a PrEP perto de você.
- aidsmap — HIV information (PrEP)Informação de referência e organizações.
Perguntas frequentes
O que as pessoas perguntam antes da primeira dose.
Uma dose por parceiro, ou uma por noite?
Uma por janela de 24 horas, aconteça o que acontecer dentro dela. Três parceiros numa noite continuam sendo uma dose. Se as relações continuam no dia seguinte, é um novo dia e uma nova dose — pelo menos 24 horas depois da anterior.
Devo esperar o fim de semana acabar e tomar uma dose só?
Não. Tome a primeira dose o mais cedo possível depois da primeira exposição — a proteção é máxima nas primeiras 24 horas — e depois uma dose por dia enquanto as exposições continuarem. A diretriz britânica admite uma dose ao fim de um período de 72 horas de relações repetidas como recurso de emergência, mas quanto mais cedo, melhor.
Substitui a PrEP ou a camisinha?
Não. A DoxiPEP não faz nada contra o HIV, nem contra herpes, HPV, hepatites ou mpox. A PrEP previne o HIV, a camisinha reduz tudo isso, as vacinas cobrem hepatites A e B, HPV e mpox. A DoxiPEP acrescenta uma proteção contra sífilis e clamídia por cima; é só isso que ela promete.
Posso tomar junto com a PrEP?
Sim. Não há interação com a PrEP oral ou injetável para HIV, e o acompanhamento — testagem de ISTs a cada três meses — é o mesmo, então a maioria dos serviços cuida das duas juntas.
Quantas doses posso tomar por semana?
Nunca mais de uma a cada 24 horas, em qualquer lugar. Alguns países acrescentam um teto: a França limita a três doses por semana; a diretriz americana não fixa limite semanal, mas ressalta que o uso intenso aumenta a pressão de resistência. A regra do seu país está na seção acima.
Sou mulher — é para mim?
As diretrizes atuais não recomendam, porque o único grande estudo com mulheres cisgênero não encontrou benefício — muito provavelmente um problema de adesão, mas um benefício nunca demonstrado não pode ser prometido. O Reino Unido permite que os profissionais a considerem caso a caso para pessoas designadas mulheres ao nascer com alto risco de sífilis. É uma conversa a ter, não uma porta fechada para sempre.
Por que alguns países recomendam e outros não?
Porque pesam as mesmas evidências de forma diferente: um forte benefício pessoal contra sífilis e clamídia de um lado, resistência na gonorreia e nas bactérias do dia a dia do outro. Países com sífilis em alta e boa vigilância se moveram primeiro; vários países europeus aguardam posições da OMS e do ECDC. As evidências são as mesmas em todo lugar; o apetite ao risco, não.
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